O couro em Portugal: de Alcanena a São João da Madeira
Curtumes centenários, fábricas que vendem sapatos para o mundo todo e uma loja de luvas onde só cabem dois clientes. E o que pedir quando for comprar couro por lá.
Em 30 segundos
- Alcanena, no centro de Portugal, tem tradição centenária em curtumes e dezenas de empresas do setor.
- O calçado português se concentra em dois polos no Norte e exportou cerca de 67 milhões de pares em 2024, no valor de 1,7 bilhão de euros.
- Em preço médio de exportação, só os sapatos italianos são mais caros que os portugueses.
- Em Portugal, couro é muitas vezes "pele", e o couro do calçado se chama "cabedal". Jaqueta de couro, por lá, é "casaco de pele".
Neste guia
Quem compra um bom sapato de couro em Paris, em Berlim ou em Nova York tem boas chances de levar nos pés um pedaço de Portugal. O couro em Portugal é uma história de pequenas cidades especializadas, de fábricas familiares que aprenderam a competir com o mundo e de lojas que resistem há quase um século. Para o leitor brasileiro, ela tem um gosto familiar: lembra muito a trajetória de Franca e de Novo Hamburgo.
Esta reportagem percorre os lugares que contam essa história, dos curtumes do centro do país às fábricas do Norte e a uma luvaria minúscula no centro de Lisboa. No fim, um guia rápido do vocabulário de lá, para você não passar aperto na hora de comprar. Os números vêm das associações do setor e da imprensa econômica portuguesa, com as fontes listadas ao fim do texto.
Alcanena, a cidade dos curtumes
Antes de virar sapato, jaqueta ou bolsa, o couro passa pelo curtume, a indústria que transforma a pele crua num material estável. Se você quer entender esse processo em detalhe, o guia como o couro é feito explica cada etapa. Em Portugal, falar de curtume é falar de Alcanena, uma pequena cidade do distrito de Santarém, no centro do país. O município tem longa tradição nessa indústria, que ganhou força a partir do século XIX, e ainda hoje reúne dezenas de curtumes, de pequenas oficinas familiares a fábricas que trabalham para grandes marcas de moda e para a indústria automobilística.
A dimensão do setor aparece num episódio de 2019: numa discussão sobre a gestão da estação de tratamento de efluentes industriais da cidade, a associação dos industriais de curtumes alertou que cerca de 80 empresas e 3.500 empregos dependiam do funcionamento dela. A estação existe justamente porque curtir couro exige muita água e muito cuidado com os resíduos, um desafio que os polos coureiros brasileiros também conhecem bem.
O calçado do Norte: dois polos que calçam o mundo
Se os curtumes estão no centro do país, o calçado está sobretudo no Norte. A produção se concentra em dois polos: um em torno de Felgueiras e Guimarães, outro em torno de Santa Maria da Feira, Oliveira de Azeméis e São João da Madeira. Juntos, esses municípios reúnem mais de três quartos dos empregos do setor. Mais ao sul, a região da Benedita, no distrito de Leiria, é outro centro importante.
A lógica é a mesma que fez do Vale dos Sinos e de Franca as capitais do calçado no Brasil: fornecedores, mão de obra especializada e fábricas concentrados no mesmo lugar. Os números impressionam para um país do tamanho de Portugal. Segundo a associação do setor, a APICCAPS, em 2024 o país exportou cerca de 67 milhões de pares de sapatos, no valor de 1,7 bilhão de euros. Mais de 80% desse valor, cerca de 1,4 bilhão, foi calçado de couro. Alemanha e França estão entre os principais destinos.
Sapatos caros, e com orgulho
O dado de que o setor português mais se orgulha não é a quantidade, é o preço. Entre os grandes exportadores mundiais, o sapato português tem há vários anos o segundo preço médio mais alto, atrás apenas do italiano. Isso não quer dizer que todo sapato português seja de luxo. Quer dizer que o país apostou em produzir menos e melhor, com couro de qualidade, design próprio e encomendas de marcas exigentes, em vez de brigar pelo menor preço.
Essa aposta explica por que tantas fábricas portuguesas trabalham para marcas internacionais exigentes. E é mais um motivo para olhar a etiqueta. Nos sapatos vendidos na União Europeia, ela indica obrigatoriamente o material do cabedal (a parte de cima), do forro e da sola, com pictogramas: o desenho de uma pele esticada quer dizer couro. No Brasil, as regras são outras, e o guia como saber se é couro legítimo mostra o que vale por aqui.
São João da Madeira: dos chapéus aos sapatos
São João da Madeira é conhecida como a "capital do calçado" de Portugal, mas começou como terra de chapéus. A chapelaria foi a primeira grande indústria da cidade, e foi quando o chapéu deixou de fazer parte do vestuário de todo dia que o calçado assumiu o posto de principal atividade econômica.
A cidade guarda as duas memórias. O Museu do Calçado, inaugurado em novembro de 2016 na Torre da Oliva, tem uma coleção de mais de sete mil sapatos, dos quais cerca de quinhentos ficam expostos, ao lado de máquinas e ferramentas usadas na fabricação. Na mesma cidade fica o Centro Tecnológico do Calçado, que apoia as empresas do setor com pesquisa e formação.
A Luvaria Ulisses e o couro de Lisboa
Nem toda a história do couro português se faz em grande escala. Na Rua do Carmo, no Chiado, em Lisboa, a Luvaria Ulisses vende luvas desde 1925, numa loja tão estreita que só cabem um ou dois clientes de cada vez. As luvas são feitas sob medida, com técnicas artesanais que vêm do início do século XX, e os ajustes são feitos numa oficina próxima.
A loja faz parte do roteiro das lojas históricas de Lisboa e, se você passar por lá, vale a visita. É um bom lembrete de que o couro também é um ofício de precisão: medir a mão, escolher a pele, cortar e costurar para que a luva vista como uma segunda pele.
Pele, cabedal ou couro? O vocabulário de lá
Quem chega do Brasil estranha. Em Portugal, pede-se um "casaco de pele", "sapatos de pele" e uma "mala de pele". "Couro" também se usa, sobretudo para peças mais grossas e para a indústria, e "cabedal" é a palavra clássica para o couro curtido do calçado e dos casacos.
Para não passar aperto numa loja portuguesa:
| No Brasil | Em Portugal |
|---|---|
| Jaqueta de couro | Casaco de pele, blusão de cabedal |
| Bolsa | Mala |
| Tênis | Ténis, sapatilhas |
| Couro sintético, couro ecológico | Pele sintética, pele ecológica |
| Mofo | Bolor |
| Cadarço | Atacadores |
Atenção aos falsos amigos. "Pele sintética" e "pele ecológica" são materiais plásticos, não couro. E um casaco "de peles", no plural, costuma ser um casaco de pelo, outra conversa. Na dúvida, a etiqueta e os testes da borda e do avesso resolvem, aqui e lá.
Perguntas frequentes
Onde se fabrica mais calçado em Portugal?
No Norte, em dois polos: Felgueiras e Guimarães, de um lado, e Santa Maria da Feira, Oliveira de Azeméis e São João da Madeira, do outro. Juntos, eles reúnem mais de três quartos dos empregos do setor.
O calçado português é mesmo dos mais caros do mundo?
Em preço médio de exportação, sim: entre os grandes exportadores, só a Itália vende sapatos mais caros, em média. Isso reflete a aposta em couro de qualidade, design e encomendas de marcas exigentes.
Como pedir uma jaqueta de couro numa loja em Portugal?
Peça um "casaco de pele" ou um "blusão de pele". Se a etiqueta disser "pele sintética" ou "pele ecológica", não é couro. E, se a jaqueta for para o inverno úmido de lá, guarde sempre numa capa de tecido: o guia como tirar mofo de couro explica por quê.
Fontes e leituras
- ECO: Uma ETAR, uma Câmara e 80 empresas de curtumes em risco (2019)
- Infopédia: Alcanena
- RTP: Exportações portuguesas de calçado caem 6,5% para 1.702 milhões de euros em 2024
- Observador: Exportações portuguesas de calçado em 2024
- ECO: Calçado português ganha posição na lista de exportadores. Só os sapatos italianos são mais caros
- World Footwear: os dois polos do calçado português
- Observador: A capital dos sapatos já tem um Museu do Calçado (2016)
- Turismo Industrial de São João da Madeira: Museu do Calçado
- Lojas com História: Luvaria Ulisses
- Time Out Lisboa: Luvaria Ulisses