Couro em Portugal: dos curtumes de Alcanena aos sapatos do Norte
Uma vila de curtumes no Ribatejo, duas regiões de fábricas no Norte e uma loja de luvas onde só cabem dois clientes. Uma viagem pelo couro com sotaque português.
Em 30 segundos
- Alcanena, no distrito de Santarém, é há gerações a terra dos curtumes portugueses.
- O calçado concentra-se em dois polos do Norte, à volta de Felgueiras e de São João da Madeira, e exporta para o mundo inteiro.
- Em média, só os sapatos italianos são mais caros do que os portugueses.
- Em Lisboa, a Luvaria Ulisses faz luvas por medida desde 1925, numa loja minúscula.
Neste guia
Quem compra sapatos numa grande cidade europeia tem boas probabilidades de levar para casa um par feito em Portugal. Por trás disso está uma história de couro em Portugal que passa por vilas de curtumes, por regiões inteiras dedicadas ao calçado e por lojas centenárias que se recusam a mudar. É uma indústria discreta, quase sempre sem marca à vista, mas que pesa muito mais do que parece.
Fizemos o percurso do couro de sul para norte: da pele em bruto que chega aos curtumes até ao sapato que segue de camião para a Alemanha ou para França.
Alcanena, a vila dos curtumes
O couro começa no curtume, onde a pele em bruto é limpa, curtida para não apodrecer e acabada com cor e textura. Em Portugal, falar de curtumes é falar de Alcanena, no distrito de Santarém. O concelho tem uma tradição antiga nesta indústria, e ainda hoje há empresas de curtumes espalhadas por todo o território.
A dimensão do setor percebe-se por um episódio de 2019: segundo a associação dos industriais de curtumes, cerca de 80 empresas e 3.500 postos de trabalho dependiam da estação de tratamento de águas residuais de Alcanena, que trata os efluentes da indústria. Os curtumes portugueses exportam boa parte da produção, para marcas de moda e para o setor automóvel.
Do Norte para o mundo: o calçado português
O destino de muito desse couro é o calçado, e o calçado português vive sobretudo no Norte. A produção concentra-se em dois polos: um à volta de Felgueiras e Guimarães, o outro à volta de São João da Madeira, Santa Maria da Feira e Oliveira de Azeméis. Estes cinco concelhos reúnem mais de três quartos do emprego do setor. Mais a sul, a zona da Benedita é outro núcleo importante.
Quase tudo segue para fora. Em 2024, segundo a associação do setor, a APICCAPS, Portugal exportou cerca de 67 milhões de pares de sapatos, no valor de 1,7 mil milhões de euros. O calçado de couro representou mais de 80% desse valor, e a Alemanha e a França estão entre os maiores compradores.
Porque é que o sapato português é caro
Há vários anos que o calçado português ocupa um lugar curioso nas estatísticas mundiais: entre os grandes exportadores, só os sapatos italianos são, em média, mais caros. A explicação não é mistério. As fábricas portuguesas trabalham sobretudo para marcas de gama média e alta, com couro de qualidade, séries curtas e prazos rápidos, em vez de competir no preço com a produção em massa da Ásia.
Para quem compra, isso tem uma consequência prática: um sapato «made in Portugal» costuma ser feito com o tipo de couro que dura e que vale a pena tratar bem. Os testes para confirmar o material estão no guia como saber se é pele verdadeira.
São João da Madeira, de chapéus a sapatos
São João da Madeira é conhecida como a «capital do calçado», mas começou por ser terra de chapéus. Quando o chapéu deixou de fazer parte do vestuário de todos os dias, a indústria do calçado cresceu até se tornar a principal atividade da cidade.
Desde novembro de 2016, a cidade tem um Museu do Calçado, instalado na Torre da Oliva. A coleção ultrapassa os sete mil sapatos e mostra também as máquinas e as ferramentas do ofício, do trabalho artesanal ao industrial. O município organiza ainda visitas de turismo industrial a fábricas da região, uma forma rara de ver por dentro como se faz um sapato.
A luvaria onde só cabem dois clientes
Em Lisboa, na Rua do Carmo, no Chiado, a Luvaria Ulisses vende luvas desde 1925. A loja é tão estreita que só cabem um ou dois clientes de cada vez, e as luvas são feitas por medida, com técnicas artesanais que vêm do início do século XX. As reparações e a produção fazem-se numa oficina próxima.
É um lembrete de que o couro português não é só indústria de exportação: é também comércio de bairro, ofício e paciência.
Palavras com sotaque português
O couro também tem vocabulário próprio deste lado do Atlântico. Em Portugal, diz-se casaco ou blusão de pele, e não jaqueta de couro; mala, e não bolsa; ténis, e não tênis. «Cabedal» é o couro do calçado e, por extensão, dos casacos, como no clássico casaco de cabedal. E o fungo que aparece no roupeiro chama-se bolor: se lhe aconteceu, veja como tirar bolor do couro sem estragar a peça.
Perguntas frequentes
Onde se fazem os sapatos portugueses?
Sobretudo em dois polos do Norte: à volta de Felgueiras e Guimarães, e à volta de São João da Madeira, Santa Maria da Feira e Oliveira de Azeméis. A zona da Benedita, mais a sul, é outro núcleo importante.
Porque é que o calçado português é caro?
Porque a indústria aposta em couro de qualidade, séries curtas e marcas de gama média e alta. Em média, entre os grandes exportadores, só os sapatos italianos custam mais.
Posso visitar uma fábrica de calçado?
Em São João da Madeira, o município organiza visitas de turismo industrial a empresas da região, e o Museu do Calçado está aberto ao público. Confirme horários e marcações antes de ir.
Como confirmamos estes números?
Os dados vêm de associações do setor e de reportagens que os citam, e cada facto foi confirmado em pelo menos duas fontes, como explica a nossa política editorial. As fontes estão no fim do artigo.
Fontes e leituras
- Exportações portuguesas de calçado em 2024, dados da APICCAPS (RTP)
- Calçado português ganha posição: só os sapatos italianos são mais caros (ECO)
- Os dois polos da produção de calçado (DNoticias)
- Uma ETAR, uma Câmara e 80 empresas de curtumes (ECO)
- A capital dos sapatos já tem um Museu do Calçado (Observador)
- Luvaria Ulisses (Lojas com História)