Como saber se é pele verdadeira: 9 testes para fazer na loja
O cheiro, os poros, a borda e o avesso dizem mais do que a etiqueta. Aprenda a ler o material com as mãos e a decifrar os símbolos dos sapatos.
Em 30 segundos
- A borda cortada e o avesso são os sinais mais fiáveis: o couro mostra fibras; o sintético mostra tecido e plástico.
- Poros irregulares, cheiro característico e pequenas marcas naturais reforçam o diagnóstico.
- Nos sapatos vendidos na União Europeia, o símbolo de uma pele estendida indica couro.
- Nunca faça o teste do fogo: estraga a peça, é perigoso e nem sempre funciona.
Neste guia
A etiqueta diz pele genuína. O vendedor garante. O preço, nem por isso. Saber se é pele verdadeira pode parecer um ato de fé, mas não tem de ser: o material deixa pistas que qualquer pessoa aprende a ler em poucos minutos, sem ferramenta nenhuma. Os olhos, as mãos e o nariz fazem quase todo o trabalho, e alguns pormenores, como a borda cortada e o avesso, praticamente não mentem.
Neste guia encontra os nove testes que funcionam na loja, o que dizem os símbolos das etiquetas europeias e os testes que não deve fazer de maneira nenhuma.
Pele, couro e cabedal: o que diz a etiqueta
Em Portugal, «pele» é a palavra do dia a dia para o couro de casacos, malas e sapatos, e «cabedal» é a palavra clássica para o couro do calçado. Já «pele sintética», «pele ecológica», «PU» ou «PVC» indicam que não é couro, por mais que o nome sugira o contrário.
Nos sapatos, a etiqueta é obrigatória. Uma diretiva europeia de 1994 exige que o calçado vendido na União Europeia indique o material principal de três partes: o cabedal (a parte de cima), o forro com a palmilha e a sola. A indicação pode ser escrita ou feita com pictogramas: o desenho de uma pele estendida significa couro, e um losango significa outros materiais. Nas peças de roupa e nas malas, as etiquetas variam mais, e é aí que vale a pena saber ler o próprio material.
Testes com os olhos
1. Os poros
Aproxime a peça do rosto e observe a superfície. O couro tem poros de tamanhos e distâncias diferentes, distribuídos de forma irregular, como a pele das suas mãos. O sintético imita os poros com um molde, e o desenho costuma repetir-se de forma regular, como um padrão estampado. Atenção: couros corrigidos e estampados também recebem um grão prensado, por isso este teste sozinho não decide.
2. A borda cortada
É o teste mais fiável. Procure uma borda sem acabamento, que muitas vezes aparece em alças, cintos, recortes interiores ou na abertura dos bolsos. No couro, a borda mostra uma massa de fibras compactas, parecida com camurça. No sintético, aparece uma camada de plástico sobre um tecido ou uma malha, como uma sanduíche, às vezes com espuma no meio.
3. O avesso
Se conseguir ver o lado de trás do material, em peças sem forro ou por uma abertura do forro, observe. O avesso do couro é aveludado e fibroso. O do sintético é um tecido, com trama visível, ou uma malha.
4. As marcas naturais
O couro vem de um animal que viveu: pequenas cicatrizes, veios, rugas e variações subtis de cor são sinais de autenticidade, sobretudo nos couros mais naturais. Uma superfície perfeitamente uniforme não prova nada, mas merece atenção redobrada nos outros testes.
Testes com as mãos e o nariz
5. O toque e a temperatura
Segure o material durante alguns segundos. O couro tende a aquecer depressa na mão e tem um toque macio, ligeiramente seco ou aveludado. O sintético costuma ser mais frio ao primeiro contacto, liso de forma uniforme e, por vezes, ligeiramente pegajoso.
6. As rugas da pressão
Pressione a superfície com a ponta do dedo ou dobre ligeiramente uma zona. O couro forma rugas finas e irregulares, que voltam ao lugar devagar. O sintético afunda de forma mais uniforme e volta depressa, ou forma vincos largos e regulares.
7. O cheiro
O cheiro do couro é inconfundível: algo entre o amadeirado, o animal e o curtido. O sintético cheira a plástico, a cola ou a tinta. Há lojas com cheiro a couro no ar, por isso aproxime a peça do nariz e cheire também o interior.
Testes de etiqueta e de preço
8. A etiqueta e os símbolos
Procure a composição. «100% pele de vaca» ou «pele de cabra» são indicações claras. Nos sapatos, procure os pictogramas que vimos acima e confirme a que parte se refere cada um: é comum o cabedal ser de couro e o forro ou a sola serem de outro material. Desconfie de etiquetas que não dizem nada.
9. O preço
O couro verdadeiro tem custo de matéria-prima e de processo. Um casaco inteiro de pele por um preço muito abaixo do mercado é um sinal de alerta. O preço não prova autenticidade, mas um valor bom demais para ser verdade quase nunca é.
Os testes que não deve fazer
O teste do fogo é o mais fiável: o couro não arde e o sintético derrete.
Queimar a peça para descobrir o material é perigoso, estraga o produto e nem sempre funciona: couros com acabamento pigmentado podem chamuscar e cheirar mal, e alguns sintéticos têm tratamento antichama. Nenhuma loja o vai aceitar, e não precisa dele. A borda e o avesso respondem à mesma pergunta sem riscos.
Basta pingar água: se absorver, é couro.
Só os couros mais naturais, do tipo anilina, absorvem a gota. Os couros com acabamento protetor, que são a maioria, deixam a água parada à superfície, tal como o sintético. E, num couro natural, a gota pode deixar mancha. O teste da água serve para descobrir o tipo de acabamento, não se é couro.
Pele verdadeira não é sinónimo de qualidade
Confirmar que é couro é só o primeiro passo. Uma peça pode ser de pele verdadeira e, ainda assim, ser feita de raspa, a camada inferior da pele, com uma película plástica por cima, ou de couro reconstituído, feito de aparas moídas e coladas. Estes materiais duram bem menos do que um couro de flor integral.
O calçado português é um bom exemplo do outro extremo: grande parte do que se exporta é feito com couro de qualidade, e é por isso que os sapatos portugueses estão entre os mais caros do mundo, como contamos em couro em Portugal.
Perguntas frequentes
A pele verdadeira descasca?
Um couro de flor não descasca. O que pode acontecer é a camada de tinta do acabamento soltar-se em zonas de muito atrito, o que tem arranjo. Quando uma peça descasca em placas finas, como uma película, é sintética, laminada ou de couro reconstituído.
Como saber se o sapato é de pele?
Veja os pictogramas na palmilha ou na etiqueta interior e confirme a que parte se refere cada um. Procure também uma borda de couro, como a da língua ou a do contorno da abertura. O couro verdadeiro alarga um pouco com o uso; o sintético quase nada.
O couro reconstituído é pele verdadeira?
Contém fibras de couro, mas é um material composto, colado com aglutinantes e geralmente coberto por uma película plástica. Não tem a resistência nem a durabilidade de um couro inteiro e tende a descascar.
A minha peça de pele ganhou bolor. Ainda vale a pena?
Na maioria dos casos, sim: o bolor costuma ficar à superfície. Siga o guia para tirar bolor do couro e, se tiver dúvidas sobre o material, escreva-nos com uma fotografia.
Fontes e leituras