Dos aviadores ao punk: a história do casaco de pele
Ele vestiu aviadores, motards, rebeldes de cinema e bandas de punk antes de chegar ao seu roupeiro. Esta é a biografia de um ícone.
Em 30 segundos
- O casaco de pele nasceu como equipamento de proteção para aviadores e motards, muito antes de virar moda.
- A Perfecto, de 1928, criou o modelo de motard que viraria símbolo de rebeldia com Marlon Brando em 1953.
- Nos anos 1970, o punk transformou o casaco em uniforme, com tachas, alfinetes e pintura.
- Hoje ele é um básico de passarela e de rua, e continua a carregar um pouco de cada fase dessa história.
Neste guia
Poucas peças têm tanta história como o casaco de pele. Antes de chegar às montras e ao seu roupeiro, ele protegeu aviadores em cabinas abertas a milhares de metros de altura, enfrentou o vento das estradas americanas, virou figurino de rebelde no cinema e uniforme de bandas que queriam assustar os pais. A história do casaco de pele é a de como um equipamento de proteção se tornou o símbolo mais duradouro de atitude da moda.
Vamos ao começo, quando a moda ainda nem passava pela cabeça de ninguém.
No começo era o frio
Os primeiros aviões não tinham cabina fechada. Na Primeira Guerra Mundial, os pilotos voavam expostos ao vento, à chuva e a temperaturas que caíam com a altitude. O couro era o material mais eficiente da época contra o frio e o vento: resistente, flexível e capaz de bloquear o ar. Casacos compridos, toucas, luvas e óculos de couro tornaram-se o uniforme desses aviadores.
Nas décadas seguintes, o modelo encurtou e ganhou forma de casaco. Em 1931, a aviação do exército americano adotou a A-2, um casaco de couro pela cintura, com gola, punhos e barra de malha e bolsos frontais. Para os voos mais altos e frios, vieram as versões forradas de pele de carneiro, com a lã por dentro. Durante a Segunda Guerra, os pilotos personalizavam os seus casacos com emblemas de esquadrão, pinturas e marcas de missões. Sem dar por isso, inventavam a personalização que o punk iria retomar décadas depois.
1928: o casaco que mudou de dono
Enquanto os aviadores voavam, outra tribo crescia no chão: os motards. Em 1928, uma fábrica de Nova Iorque lançou um casaco pensado para eles e batizado com o nome do charuto preferido de um dos fundadores. A Perfecto era vendida numa revendedora de motas por cinco dólares e cinquenta cêntimos.
O desenho era pura função. O fecho principal corria na diagonal, para que as duas frentes se sobrepusessem e bloqueassem o vento quando o condutor se inclinava sobre a mota. As lapelas largas fechavam com botões de pressão sobre o pescoço, o cinto ajustava a cintura e os bolsos com fecho guardavam o que não podia voar na estrada. Quase um século depois, é o modelo que vem à cabeça quando alguém diz casaco de couro.
Hollywood transforma motards em ícones
Em 1953, Marlon Brando apareceu em O Selvagem com um casaco de motard, boné e óculos escuros, à frente de um bando de motociclistas que aterroriza uma cidadezinha. O filme causou tanto desconforto que foi proibido no Reino Unido durante mais de uma década. Para os jovens, a mensagem foi outra: aquele casaco era o figurino da rebeldia. Há relatos de escolas que proibiram o uso da peça, vista como sinal de delinquência, o que só aumentou o desejo.
Vestir um casaco de couro nos anos 1950 era dizer, sem abrir a boca, que não estava do lado dos adultos.
Um mito persistente merece correção. Em Fúria de Viver, de 1955, James Dean não veste um casaco de couro, mas um blusão vermelho de tecido. O título original é Rebel Without a Cause. O couro aparece nas fotos dele fora das telas, e isso bastou para colar a imagem do ator à peça para sempre.
Rock, punk e o casaco como uniforme
Nos anos 1960, o casaco acompanhou o rock e as subculturas de motards em Inglaterra, onde os jovens que andavam de mota entre cafés de beira de estrada popularizaram o modelo café racer, mais enxuto. Mas foi nos anos 1970 que o casaco virou uniforme.
Em Nova Iorque, os Ramones adotaram o casaco de couro preto, a ganga rasgada e os ténis como identidade visual da banda. Em Londres, o punk levou a ideia mais longe: casacos cobertos de tachas, alfinetes, pinturas e nomes de bandas, cada um diferente do outro. A peça deixou de ser só símbolo de rebeldia e passou a ser uma tela em branco para dizer quem se era. Nas décadas seguintes, o metal, o rock alternativo e o gótico repetiram o gesto, cada um com a sua estética.
Dos anos 1980 às passarelas
Os anos 1980 levaram o casaco de couro ao mainstream pelo cinema e pela música pop. Michael Jackson vestiu couro vermelho em videoclipes que marcaram a década, como Thriller, de 1983. O Exterminador Implacável, de 1984, e o piloto de Top Gun, de 1986, com o casaco de voo da Marinha americana coberto de emblemas, reforçaram a imagem do herói durão de couro.
A partir daí, as grandes casas de moda passaram a incluir o casaco de motard em praticamente todas as coleções, em versões de cordeiro finíssimo, com cortes ajustados e preços de luxo. A peça que nasceu para proteger passou a desfilar em Paris e Milão. Nos últimos anos, o movimento inverteu-se de novo: as peças de segunda mão e vintage viraram objeto de desejo, porque o casaco de couro é uma das poucas roupas que ficam mais bonitas com a idade.
E em Portugal?
Por cá, o punk também tem nome próprio. Os Xutos & Pontapés formaram-se em Lisboa em 1978, como banda de punk rock.
O couro tem uma história própria no país, feita de curtumes e fábricas de calçado. Essa parte está contada em Couro em Portugal.
O clima também pesa na escolha. Segundo o IPMA, Portugal Continental tem invernos chuvosos e verões secos. Por isso, o casaco de pele fica bem no outono e no inverno. Quem o usa em dias de chuva deve deixá-lo secar ao ar, longe de radiadores, e os cuidados estão em como limpar casaco de pele em casa sem estragar a peça.
Por que ele nunca sai de moda
A peça sobrevive a todas as tendências porque une três coisas raras. É funcional: protege do vento, aguenta o uso pesado e dura décadas. É simbólica: carrega a memória dos aviadores, dos motards, dos rebeldes do cinema e das bandas de punk. E melhora com o tempo: cada ano de uso deixa marcas que contam a história de quem a vestiu.
Se está a pensar em ter o seu, o primeiro passo é saber distinguir a pele verdadeira do material imitado. Os testes estão em como saber se é pele verdadeira, com 9 testes para fazer antes de decidir.
Perguntas frequentes
Quem inventou o casaco de couro?
O modelo de motard com fecho diagonal é creditado a Irving Schott, da fábrica nova-iorquina que lançou a Perfecto em 1928. Mas o casaco de couro também vem da aviação militar, que o usava desde a Primeira Guerra. A peça que conhecemos hoje nasceu dessas duas linhagens.
Porque é que o fecho do casaco de motard é torto?
Porque foi feito para andar de mota. Com o fecho na diagonal, as duas frentes sobrepõem-se e bloqueiam melhor o vento, e o fecho não aperta o peito quando o condutor se inclina para a frente.
Que casaco Marlon Brando usou em O Selvagem?
Um casaco de motard de couro preto, no estilo Perfecto, com fecho diagonal e lapelas largas. A cena virou referência de figurino rebelde e ajudou a popularizar a peça entre os jovens dos anos 1950.
James Dean usava casaco de couro?
Usava em fotos e na vida pessoal, mas não no filme mais famoso. Em Fúria de Viver, o figurino marcante é um blusão vermelho de tecido.
Fontes e leituras
- Schott, a Perfecto de 1928 e o preço original de 5,50 dólares
- Ninety Years of the Schott Perfecto Jacket (MR PORTER)
- A-2 jacket (Wikipedia)
- Hell Bent for Leather, Army Air Corps Museum
- The Wild One, BBFC
- Far Out Magazine, filme banido no Reino Unido
- Diário de Notícias, Fúria de Viver
- CCB, programação de Fúria de Viver
- Infopédia, O Exterminador Implacável
- Observador, cronologia dos Xutos & Pontapés
- Pplware, Peopleware Classics (Xutos & Pontapés)
- IPMA, clima de Portugal Continental
- Exame Nacional de Geografia A, 2012 (classificação climática)