Guia de compra

Tipos de couro: o guia para ler a etiqueta e pagar o preço justo

A diferença entre flor integral e flor corrigida pode decidir se a peça dura uma vida ou apenas uma estação.

Amostras de couro com grão em tons dourado, prateado e bronze, empilhadas em curva
Foto: @kellysikkema / Unsplash

Em 30 segundos

  • O couro classifica-se pela camada da pele, pelo acabamento, pelo animal e pelo curtimento.
  • A flor integral é a camada mais nobre e durável; a raspa e o couro reconstituído são os mais simples.
  • A anilina é o acabamento mais natural e sensível; o pigmentado é o que mais resiste a manchas.
  • Na etiqueta, a palavra “couro” só indica a origem; procure o tipo e a camada.
Neste guia
  1. Primeiro, a anatomia: as camadas da pele
  2. Pela camada: do mais nobre ao mais simples
  3. Pelo acabamento: anilina, semianilina e pigmentado
  4. Pelo animal
  5. Pelo curtimento: crómio ou vegetal
  6. Como decifrar a etiqueta
  7. Qual tipo escolher para cada peça
  8. Perguntas frequentes

Dois casacos pretos, lado a lado na arara. O mesmo modelo, a mesma cor, as duas com a etiqueta a dizer “couro”. Um custa o triplo do outro. Burla? Não necessariamente. Podem ser feitos de tipos de couro completamente diferentes, e essa diferença vai notar-se em dois ou três anos: uma estará mais bonita do que no dia da compra; a outra, rachada nas dobras.

Perceber os tipos de couro é o que permite ler a etiqueta, fazer as perguntas certas ao vendedor e pagar o preço justo. Este guia organiza tudo em quatro critérios: a camada da pele, o acabamento, o animal e o curtimento.

Primeiro, a anatomia: as camadas da pele

Toda a classificação começa num corte transversal da pele. De cima para baixo, ela tem três regiões. A flor é a camada externa, onde ficavam os pelos: fina, compacta, com os poros visíveis, é a parte mais resistente e nobre. Logo abaixo vem a trama de fibras, uma rede de colagénio que dá corpo ao couro. Por fim, o carnal, o lado de dentro, que estava em contacto com a carne.

Corte simplificado da pele Três camadas empilhadas: flor em cima, fibras no meio e carnal embaixo. Uma linha tracejada logo abaixo da flor marca onde a pele é dividida em flor e raspa. FLOR FIBRAS CARNAL linha da divisão
Corte simplificado da pele. Na etapa da divisão, uma máquina separa a camada de cima, a flor, da camada de baixo, a raspa.

No curtume, uma máquina de precisão divide a pele em duas lâminas. A de cima, com a flor, dá origem aos couros mais valorizados. A de baixo, chamada raspa, vira camurça ou recebe um acabamento que imita a flor. É aqui que nasce a maior diferença de qualidade entre peças que parecem iguais.

Pela camada: do mais nobre ao mais simples

TipoComo éDurabilidadePreço
Flor integralFlor inteira, sem lixar, com poros e marcas naturaisA maior; ganha pátinaAlto
Flor corrigidaFlor lixada para tirar marcas, com grão estampado e acabamentoBoa e uniformeMédio
RaspaCamada de baixo; vira camurça ou recebe película plásticaMenor; a película pode racharBaixo a médio
Couro reconstituídoAparas moídas e coladas sobre uma base, com película plásticaBaixa; tende a descascarBaixo

Flor integral é a referência. Como as fibras da superfície estão intactas, resiste mais, respira melhor e envelhece com beleza. Também mostra as marcas da vida do animal, o que alguns consideram defeito e outros, charme.

Flor corrigida é a flor que passou por um leve lixamento para disfarçar cicatrizes e depois recebeu tinta e um desenho de grão prensado. Fica mais uniforme e resistente a manchas, mas perde um pouco da respiração e da pátina. É a base da maioria dos sapatos e malas.

Raspa não tem a camada compacta da flor, por isso é menos resistente. Lixada, vira camurça de raspa; coberta por um filme de poliuretano, vira raspa laminada, que imita couro liso e pode descascar como um sintético.

Couro reconstituído é o parente pobre: fibras e aparas moídas, misturadas com aglutinantes e coladas sobre um tecido, quase sempre com uma película plástica por cima. Contém couro, mas comporta-se como um laminado. Na dúvida sobre o que tem em mãos, o guia como saber se é pele verdadeira ensina a examinar a borda e o avesso.

Pelo acabamento: anilina, semianilina e pigmentado

O acabamento é o que vai por cima do couro depois do tingimento, e muda a aparência, o toque e os cuidados.

AcabamentoAparênciaResistência a manchasPátina
AnilinaNatural, mostra poros e marcas, toque macioBaixa: escurece com uma gota de águaMuito marcada
SemianilinaNatural, com uma camada leve de proteçãoMédiaModerada
PigmentadoCor uniforme, superfície protegidaAltaPouca

Além destes três, há acabamentos que se tornaram nomes de couro:

  • Nobuck: flor lixada muito de leve, com toque aveludado e curto. Parece camurça, mas é mais resistente.
  • Camurça: toque aveludado obtido do lado do carnal ou de uma raspa. O nome vem de um animal das montanhas europeias, a camurça.
  • Verniz: couro coberto por uma camada brilhante e impermeável, de efeito espelhado.
  • Pull-up e crazy horse: couros ricos em óleo e cera, que clareiam quando se dobram ou arranham e ganham pátina depressa.
  • Floater: couro amaciado no fulão até a flor formar um grão graúdo; muito usado em malas.
  • Saffiano: estampado com pequenas hachuras cruzadas, prensado a quente, com acabamento que resiste a riscos.
  • Estampado: couro com desenho prensado que imita outros animais, como crocodilo ou cobra.

Pelo animal

  • Bovino: o mais comum no mundo. Resistente e versátil, aparece em sapatos, malas, cintos e casacos. A vaqueta é um couro bovino de flor de espessura média, muito usado em calçado.
  • Ovino (cordeiro e ovelha): leve, macio e de toque sedoso. É o preferido para casacos e luvas finas, como a napa.
  • Caprino (cabra e cabrito): fino, resistente e com grão bonito. A pelica, delicada, é tradicionalmente de cabrito.
  • Suíno: resistente e económico, aparece muito em forros. Dá para reconhecer pelos poros, que costumam surgir em grupos de três.
  • Peixe: feito de pele de tilápia ou de salmão, aproveitada da indústria alimentar. Tem desenho de escamas e é surpreendentemente forte.
  • Exóticos: jacaré, avestruz e cobra dependem de licenças, criação controlada e convenções internacionais, como a CITES. Em Portugal, a autoridade CITES é o ICNF, e é esse instituto que licencia o comércio destas espécies. Desconfie de peças sem documentação.

Pelo curtimento: crómio ou vegetal

O curtimento é a etapa que transforma pele em couro. A maior parte do couro do mundo é curtida com sais de crómio, um processo rápido que gera couros macios, leves e estáveis. A alternativa tradicional usa taninos extraídos de cascas e madeiras: o curtimento vegetal é mais lento, produz couros mais firmes e encorpados e desenvolve a pátina mais bonita. É a base de cintos, solas e muitas malas artesanais.

Em Portugal, esta tradição tem morada certa. Alcanena é um dos grandes polos de curtumes do país, e o Museu Municipal de Alcanena guarda uma coleção sobre a indústria dos curtumes, com máquinas antigas. Para ver como o couro chega ao produto final, leia o couro em Portugal.

Como decifrar a etiqueta

  • “Couro” ou “pele” sem mais detalhes: diz apenas que é de origem animal. Não diz a camada nem a qualidade.
  • “100% couro bovino”, “pele de cabra”: informa o animal. Bom sinal de transparência.
  • “Flor integral” ou “full grain”: a melhor camada, sem lixamento.
  • “Top grain”: em etiquetas em inglês, geralmente indica flor corrigida.
  • “Genuine leather”: apesar do nome, costuma indicar couros de qualidade mais baixa, muitas vezes de raspa.
  • “Bonded leather” ou “couro reconstituído”: aparas coladas, durabilidade baixa.
  • “PU”, “pele PU”: sintético ou raspa coberta de poliuretano. As diferenças estão em pele ecológica: o que é mesmo.

Qual tipo escolher para cada peça

PeçaMelhor escolhaPorquê
CasacoCordeiro ou bovino de flor integral ou semianilinaMacio, respira e envelhece bem
Mala do dia a diaPigmentado, floater ou saffianoResistem a riscos e manchas
Sapato formalBox calf ou bovino de florSuperfície fina que aceita brilho
BotaBovino encorpado, pull-up ou nobuckResistência e pátina
CintoCurtido vegetal (atanado)Firme, não deforma e escurece bonito

Para o casaco, que é a compra mais importante, veja os modelos de casaco de couro e a forma de cada um.

Perguntas frequentes

Qual é o melhor tipo de couro?

Para durabilidade e beleza a longo prazo, a flor integral. Mas o melhor depende do uso: para uma mala que vai sofrer no dia a dia, um couro pigmentado ou saffiano pode ser mais prático, porque resiste a manchas e riscos.

Couro de cabra ou de vaca: qual é melhor?

São diferentes, não melhores. O de cabra é mais fino, leve e flexível, com grão marcante; o bovino é mais grosso e encorpado. Para casacos leves e luvas, cabra e cordeiro; para botas, cintos e malas estruturadas, o bovino.

A camurça é couro de verdade?

É. A camurça é couro com acabamento aveludado, obtido do lado de dentro da pele ou de uma raspa. Existem também tecidos sintéticos que imitam camurça, chamados de suede sintético, que não são couro.

Couro de porco é mau?

Não é mau, é diferente. É resistente e respira bem, por isso aparece muito em forros de sapatos. Para peças exteriores, costuma ser considerado menos nobre do que o bovino e o caprino.

Como saber se é flor integral?

Procure poros e pequenas marcas naturais na superfície, uma borda com fibras compactas e um toque que varia ligeiramente ao longo da peça. Etiquetas transparentes indicam o termo. Na dúvida, pergunte ao vendedor ou ao fabricante qual é a camada do couro.

Fontes e leituras

#tipos de couro#compras#pele verdadeira

Redação Manual do Couro

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